Argos. O semi-mental.

Esqueci o meu nome, o formato do meu rosto, a direção certa a tomar, mas logo me recordo ao menos à direção. Talvez tenha embarcado no ônibus errado, eu sinto como se estivesse errando, errado novamente e novamente e novamente, erros sem fim, um reles errante, caminhando para o seu final, mas qual final? quando toda esta barafunda termina? quero ir pra casa, o dia de trabalho não foi legal, minha memória esta afetada, não sou velho, porém, tambem não sou novo, como pude esquecer meu nome?Oh vida dificil! eu sou branco, as coisas não deveriam ser tão dificeis assim. Não tive a sorte de nascer negro e mergulhar no mundo reggae ou amargar na vida do crime, tráfico de drogas; judeu e ter razão para me drogar e fugir da realidade, possuir um QI elevado e dinheiro em excesso.
Achei, achei o caminho de casa, estou deslizando a minha mão até meu bolso direito, preciso apanhar as chaves, entrar. O cadeado do portão de ferro, estilo presidio, pintado a tinta cor de bosta, ou melhor, cor de burro quando foge. Consegui abrir o cadeado—, afinal de contas parece ser apenas duas chaves, a certa e a errada. Possivelmente a outra chave irá abrir a porta da pocílga. Eu quero entrar, quero esquecer a rua, as pessoas me olhando de viés, sem virar o rosto como se eu fosse um bicho do mato, algo assustador, de por medo às vistas. Isso tudo deve ser alucinação, devo ter exagerado nos remédios —, váriados remédios estive a tomar durante o expediente.Sim, estou abrindo a porta da pocilga, gente! estou entrando em casa, vou ficar bem, vou me esconder novamente, estarei protegido do mundo! É, a velha parede continua rachada, na divisória dos comodos, dos pequeníssimos comodos , posso ver a madeira empenada e uma aranha magricela caminhando lentamente para fugir da minha visão. Sim, foi eu mirar a divisória de madeira a inconveniente aranha começou a fugir dos meus olhos curiosos, ávidos por novidades, mas é claro que não terá novidade, aqui sempre fica tudo do mesmo jeito: roupas espalhadas, restos de miojo nas panelas, chinelos sortidos, talco polvilhado pelo chão e é isto: bagunça!
Agora, a primeira coisa que devo fazer é tirar os sapatos, sentar-me lentamente para não foder mais as minhas judiadas costas e retirar estes benditos sapatos. Como de praxe eles cozinharam meus pés, — poxa vida, deveriam liberar as pessoas para trabalharem de chinelos, ao menos algumas horas ao dia. Sapatos fodem os pés, ainda mais depois de 100 milhões de segundos com eles nos pés. É paciência. O jeito é calçar estes chinelos salpicados de talco e ligar um som estúpido para me sentir estúpido —, assim me sinto vivo, porque no trabalho me sentia um morto-vivo, para tudo era autômato, movimentos mecânicos e respostas repetitivas. As formalidades básicas saem sem eu mesmo perceber, sinto-me um robô altamente programado, poxa, que quiproquó, eu estava falando sobre meus pés cansado e já voltei a recordar-me da porcaria do trabalho, isto é demais, isto é cacete! E viva mais uma música estúpida, cantada em inglês borocoxô, sem sentido, mas que as pessoas gostam. Oh mundo ordinário!
Hora de expelir a meleca, por o nenem para nadar, fazer aquele coco bonito. É, mais uma vez a merda empedrou. Ninguém gosta de defecar no trabalho, é desagradável, os colegas podem ver que demorou muito dentro do banheiro e aparecer piadas, caçoarem, diretamente ou indiretamanente. O que acontece? seguramos a merda e ela empedra e, quando chegamos em casa lembramos que devemos entrar em trabalho de “parto”. Que sufoco! Quando ja estamos com ” as coisas” em pedra bruta, ( sei que adoraram o eufemismo) dentro da barriga é triste na hora de esvazia-la. Acontece certo esforço, caso a pessoa tenha hemorróidas deve ser pior ainda —, chega de detalhes. Fiz tudo lá e tomei um belo banho, deslizando gostosamente o sabonete no meu corpo delgado, cheio de pontas de ossos visivelmente expostas. Isto não foi a descrição pormenorizada de uma garota que sofre de anorexia, tampouco a descrição do chato dom quixote de la mancha. O ser humano se resume quase sempre a um bípede estúpido que caminha aí pela terra, fazendo porcaria e fodendo seus semelhantes—. Claro que há momentos do qual é, ou parece sublime, mas logo é dissipada no ar, aí a vontade de guerrilhar, destruir voltam à tona. Fora o demasiado consumismo que é uma baita doença  sécular, etc, etc…
Eu cidadão sul americano, poderia explanar o tanto de malucas que conheci, principalmente as estrangeiras que ficavam curiosas com ” o homem que só dizia a verdade”.Quando tinha uns 12 anos conheci uma cubana na praia. Ela pediu para um amigo perguntar o que estava fazendo com aquela cerveja na mão e eu disse algo mais ou menso assim :” Vi os homens grandes tomando e quis tomar também, me disseram que serei grande que nem meu avô”. Pronto, ela me pagou salgadinhos, quase me levou para casa. Mais tarde vim ter contato com o espanhol, conheci uma uruguaia na praia. Eu tinha uns 14 ou 15 anos e achei toda a graça do mundo no idioma espanhol, naquela garota simpática que apresentou-me o vôlei. Tentei jogar, mas ela caçoava a todo instante de mim, eu realmente não tinha jeito para o vôlei. Ela voltou a cidade algumas vezes, porém, eu já não era o mesmo, já estava viciado em bebidas alcoolicas. Acho que ela foi apaixonada por mim, alguns anos depois meus colegas disseram, mas eu só pensava em beber, jogar games. Outros anos vieram e novas estrangeiras apareceram, aprendi um pouco de espanhol, francês, inglês, russo, japonês, alemão e talvez mais alguns idiomas. Claro que hoje nem meu idioma domino. O melhor de tudo é que quando terminar de escrever já serei um homem sóbrio. Possivelmente terei novo contato com “porcarias”, mas sera diferente ou não?
Uma visão soturna e pessimista das coisas, o humor cínico, vomitado, é culpa deste panorama absurdo da vida que consome diariamente meus sonhos, mesmo assim posso dizer de forma segura que dentro do peito de todo homem há uma estrela pronta para brilhar.— Até no meu! Porém, fica dificil manter-se sóbrio, não locupletar-se de porcarias, drogas, alcool e péssimas amizades, mas o que fode mesmo é esta bendita consciência,— desde aquele repentino minuto que bate no rosto do homem a sua ínfima condição humana, que eu posso chamar de consciência da sua ‘pequenez’, o sofrimento, o peso caí sobre suas costas. E eis aí o homenzinho. Agora a talagada de cachaça, o mugido de leão, jogar-se sobre o catre e amanhã será um novo dia de auto-destruição ou não!…

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Estrelas dobráveis

Acordei de uma noite de sonhos intranquilos. Em meu sonho observava estrelas dobráveis no céu, a imagem era inebriante, eu mirava aquela abóboda celeste repleta de estrelas, míriades de estrelas e, eu lá em baixo, um grãozinho de areia, um ser infinitesimal, um nada diante da grandeza das galáxias, do universo. Meu nome Tobias. Tenho rosto redondo, intumescido, nariz médio, com formato indescrítivel — não seria nem achatado, nem com ponta definida. Talvez meu rosto seja inchado de tanto dormir. Pouco importa a minha pessoa, quero contar o meu sonho, é mais interessante e quiça discorrer sobre a manhã magnifica que tive.
Tinha consumido variados remédios para meu problema de enxaqueca, insônia, gastrite e outros tantos problemas que um corpo débil e mal cuidado possui. Não comi nada  nocivo ao meu frágil estômago, pra falar a verdade deitei para dormir com um pouco de fome, — ou simplesmente com vontade de comer, pois nunca sei se realmente estou à sentir fome de fato.
Ora pois, eu ali deitado escutando os gatos ronronarem no telhado. Animais incongruentes, paciência. Queria muito dormir, sempre quero muito dormir e levantar-me, abrir a janela paulatinamente e fazer: ” pchiii, pchiii”, para o gato? Não, não. Seria perca de tempo, o gato parece jumento, empaca e só sai dali à base de pedradas ou pancadas no pé da orelha. Não ficaria atirando pedras em gatos, seria um despropósito sem tamanho! Fiquem os gatos lá, ronronando, naquela safadeza ordinária que só gatos sabem fazer. Logo estarei sonhando e assim foi.
Lá nas minhas entranhas, aproximadamente dentro da oficina de meu estomâgo, tudo começou. Esse tipo de sonho arrebatador não é engendrado na cabeça, pra mim ele é gerado no estomâgo, ainda mais depois de tantos remédios consumidos. Desagradável deglutir aquela quantidade pavorosa de comprimidos. Poderia ter sonhos medonhos com tanta droga, porém o sonho foi sublime.
Estava lá as estrelas dobráveis no céu, o vento parecia tangível a ponto de parecer um afago materno, as vezes era dia, as vezes era noite, não existia chão, era um gramado enorme, um gigante tapete verde cheio de vida. Fiquei ali sentado mirando aquela beleza toda. Conseguia ouvir  minha respiração tranquila, escutava o meu silêncio, era possivel meditar, sentir a minha paz interna, não existia conflitos entre a minha energia e a energia ali espalhada naquela maravilha toda. De súbito eu sentei e tentei auscultar o gramado. Fiz apoio no chão com meus dois braços e abaixei meu rosto,Lentamente, incrédulo.Toquei o chão com minha orelha esquerda e não pude ouvir nada. Levantei e fui atraido novamente pelas estrelas. Estavam lá resplandescentes estrelas, todas elas indescritivelmente dobráveis, pareciam de brinquedo. Extraordinário.
Sem mais nem menos, eu acordo assustado, na verdade não tinha acordado, mas corri até a janela, abri violentamente a mesma e procurei as estrelas no alto da abóboda celeste e foi uma baita decepção nas ve-las. Estava chovendo torrencialmente, o tempo estava sinistro, feio, chato, sem graça, quase luto e não havia uma única estrela no céu. Estava frio, gélido, tétrico. Era tudo um sonho besta, era tudo efeito medicamentoso, efeito colateral. O jeito é encarar a realidade insossa e destruidora de sonhos e, aguardar a proxima noite de sonhos inebriantes!
Agora é hora de voltar ao trabalho, acabo de ler o e-mail do meu chefe, que rebateu nervosamente o meu pedido de férias. Eu nem li o e-mail inteiro, pois na segunda linha já estava escrito: —” você é estúpido, pernóstico, safado, folgado, pedante(…)” era um adjetivo pior que o outro, a cada vírgula um soco na cara!… corri os olhos sorumbáticos para as últimas linhas que diziam: —” nada de férias e ponto final.”
Enfim, meu chefe é um besta e eu espero sonhar esta noite.

Um jornalista.

Vertes lágrimas nos meus olhos, minha mão havia apanhado mecanicamente meu pênis. Eu gloriosamente estava urinando no diminuto mictório do banheiro da redação. Evidentemente não deveria ter segurado tanto a urina, qualquer hora dessa uma infecção urinária vem e fode com meu bom humor —, mentira, é indelével a minha imagem de mau humorado. Eu lá lavando minhas mãos na pia e observando meus queridissimos colegas saindo sem lavar as mãos. Uns canalhas, porcos e repugnantes…mas tudo bem, aquilo era de praxe, já havia acostumado a perceber a falta de higiêne dos coleguinhas de trabalho.
Depois de lavar as mãos, eu rapidamente deslizei a mão até o bolso e retirei o flaconete com o pó. Caminhei até as várias divisões de sanitários do banheiro e, escolhi o menos fétido para entrar. Dentro do mesmo de chofre estiquei o braço esquerdo até a altura do torax; com o dedão da mão direita eu abri o flaconete; o pózinho mágico estava todo em cima da minha mão esquerda, com a direita apanhei o “canudo” no bolso de trás da calça e aspirei aquela maravilha. Claro que eu tinha habilidade e fazia o caminho de rato facilmente, sem precisar do cartão de crédito para ajeita-lo.
Depois de absorver o pózinho mágico, caminhei até a pia novamente para a ablução das mãos. Era hora de voltar pra porra do trabalho. Editar, editar e editar. Se eu soubesse que era assim, não seria jornalista. Enxugar textos diariamente por horas à fio não é peremptóriamente um mar de rosas, porém, não devo saber fazer outra coisa. Foi o curso superior que imaginei que seria mais fácil. Seria ” mamão com açucar” como dizia um senhor que conheci.
Voltando para executar a minha função e concluir a edição de uma matéria, fui indo claudicante nos pensamentos, mas meu corpo estava em efervecência. Eu estava com disposição para correr uma maratona de São Silvestre ou subir um prédio de 100 andares pelas escadas. No vulgo eu estava engessado. Estava em estado de bruxismo, mesmo acordado meus dentes faziam atrito. Havia um ricto no meu rosto macilento, esquálido de tanto trabalhar e aspiarar pó — coitada das pessoas que achavam o ricto bom humor. Não venham me chamar de víciado porque dentro daquela redação praticamente todos utilizavam as suas ” droguinhas”. Talvez seja o mau da profissão, mas, não tenho como dizer que é uma assertiva absoluta porque não sou pesquisador de usuários de drogas. Sou apenas um merdinha de um editor, pessimamente mal remunerado e pouco valorizado. Foda-se, sou bom em que faço. Confesso que não tenho o “dom” da escrita, mas, enxugar texto é comigo mesmo!
Refestelado naquela cadeira cacete — a cadeira era mais dura que sentar em pau de arara. Sentei e num autômato repentino me servi daquele café aguado que só em redação de jornal tem. Não sabia se trabalhava ou contemplava o decote de Carolina. Ela, uma estagiária com o sobrenome de modorra. A garota vivia chafurdada em apátia e mesmo vagarosa conseguiu a fama de ter transado com uns vinte caras da redação — há dois meses apenas que estava abraçada a sinecura. Sua função era, não, ela não tinha função, só cumpria suas 6 horas diárias de estágio obrigatório da faculdade. Enfim, a proeminência dos belos seios parecendo duas montanhas absurdamente perfeitas tiravam a minha atenção do trabalho a ser efetuado. Não obstante, quando recordava o caso dela com o fulano mais abjeto da redação, sentia engulhos e, só assim retornava-me a concentração no trabalho e a porra toda fluía e, eu logo logo estaria livre daquela aporrinhação que é ter prazo para entregar matéria.
Todas as vezes que o senhor esternocleidomastóideo o bam-bam-bam da redação, o honorável, digníssimo e imponente senhor Marcelo Linhares, editor-chefe, telefonava para dizer: “a matéria já esta pronta ou vai precisar de mais tempo ainda?”. Sentia meu corpo fremir por inteiro, era ódio mortal que sentia por aquele individuo pé-no-saco. Apressadinho que é, nem deve dar conta da sua esposa espalhafatosa que vive dando vexame em restaurantes e nós jornalistas, vivemos mitigando, obliterando seu nome da coluna social. Uma vez, a dona Helena Linhares encontrou um fio de cabelo na sua iguaria suculenta. Ela estava no que há de melhor em restaurante na cidade e, começou a estrilar tanto, mas tanto, que esvaziou o restaurante e ainda por cima tiveram de chamar ambulância para acudir a selvagem. Tadinho do senhor Linhares. Tadinho.
A cefaléia tomava conta de mim, apesar disso, poderia sentir-me aliviado, — terminei o caralho da matéria. Era hora de sair daquela prisão. Eu poderia: me matar; beber até morrer; matar alguém; correr pelado pela rua; me atirar num rio. Cagão que sou escolhi ir pra casa. Homem de verdade ao menos tem corgem de se matar, eu não sou homem de verdade, sou meio homem, meio parasita. Foda-se eu tenho um estomâgo, posso comer até não aguentar ou beber míriades de driques por aí e, a vida continua. À caminho do apartamento eu deliberadamente (tenho problemas mentais, todos sabem), abaixei o vidro do carro e chamei uma garota apetitosa pra um ‘approach’. E não é que a danada veio. Loucamente disse a ela: “nossa, eu poderia beija-la com tanta volúpia que encontraria um ponto G em sua boca, ou simplesmente lhe daria 400 orgasmos com este tórrido e salivante beijo”. A garota que ignoro sua descriçao física, seu apanágio estético, disse: ” cara, tchau!” e isso foi como ela tivesse pespegado um tapa em minha face. Confesso, foi excitante ver seu rosto iluminado, de súbito enegrecer, tornar-se semelhante a um Shar Pei, aquela raça de cachorro chinês mais enrugado que escroto de velho. Qualquer dia destes eu caio morto numa rua por aí, acho interessante a idéia de cair morto subitamente numa rua toda cagada de pombos!

Cadê meu sorriso?

O corpo débil, o raciocínio afetado. A música toca a noite passa, mas, passa lentamente, paulatinamente, como uma senhora demasiadamente decrépita à atravessar essa avenida. O mundo dorme e eu acordado, olhos injetados, sem perspectivas aparentes e latentes. Meu subterfúgio quiçá ser alguns livros que, vem sempre a me acompanhar na minha guerreira mochila, ou nestas linhas que escrevo à esmo — a centelha, o lampejo, o axé, a luz vem deles. Meu companheiro? Somente o computador. Meu amigo? Ah, só se for meu celular — passa 24 horas por dia ao meu lado, sim, fiel companheiro.

A Lua resplandece no alto do céu. O trovão retumbante ecoa sem mostrar sua face e, qual será o segredo dos espaços do contra-tempo daquele relógio estranho, aquele que está pendurado naquela parede velha, rachada, sulcada. E Naná, por onde andará? Aquela gata manhosa que tanto me aporrinha, que vem aos meus pés, ronronar, quase suplicar um afago.

Mais um dia, mais uma dor de cabeça. Pessoas mal humoradas, taciturnas, se levantam das suas camas quentes e vão distribuir neurastenia em seus trabalhos. Algumas ao menos dizem clichês e, outras ficam no silêncio mesquinho. Esses seres humanos são fracos e se deixam dominar pelos defeitos de fábrica. Cadê o sorriso meu povo? Por falta de luz? Sol, num é o problema. O sol não teve preguiça e dardejou sem perder tempo. Este só se esconde às vezes — bate aquela melancolia e some atrás das nuvenzinhas — quem disse que Sol também não tem depressão. Porém neste dia ele brilhava como um rei imponente. Sol, o que seriamos sem esta estrela colossal? Difícil imaginar na mente mais fértil, brilhante, de pura vivacidade. Não saberia algo bom a dizer e sim qualquer coisa tétrica que, nem é bom buscar na imaginação. No fundo escuro da gaveta da reminiscência; e não seria exagero com seus rogos e fé, pedir para que ele continuasse a brilhar e, lançar sua incomensurável luz no caminho de todos esses brasileiros.

Joãozinho.

(Pacheco aproxima-se e sem titubear, sem preâmbulo algum lhe pespega uma indagação)

— Joãozinho, por que tu não reclama a Deus as amarguras da vida? Como todos fazem incansavelmente.

— Sabe Pacheco, tô feliz com a minha vida e a minha desgraçada pobreza. As ‘pessoa’ precisam parar de reclamar tudo a Deus e resolver entre elas seus problemas.

— É verdade Joãozinho, devemos deixar Deus em paz. Tens razão; garoto esperto…

— Pois é.
— Vou ali comer um cachorro quente e já volto meu rapaz.

— Fique à vontade Pacheco.

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(Tio vinha chegando e olhando para o céu, quando interpelado por Joãozinho)

— Tio?

— Fale Joãozinho.

— Queria ter nascido nos Estados Unidos.

— Por que Joãozinho? Lá tem muito dinheiro, pouca cultura, pouca história, pouca arte, pouca dança, só muito dinheiro mesmo, sabe.

— E no Brasil?

— Ah! Não me faça pergunta dificil moleque!

— Então é ai que está o busílis tio.

— Os estrangeiros insistem em dizer que só temos macacos, cachaça e bunda de fora.

— E é verdade tio?

— Oh moleque, tu é  rabo de foguete, hein! Vou arrebentar essa TV e, não deixarei faltar no colégio. Essa TV fica encasquetando sua cachola de perguntas.

— Tio a dúvida me consome, do mesmo jeito que o treponema consome as mulheres da noite (rameiras).Tenho fome de saber, não quero morrer embrutecido e ignorante como Papai, que pra tudo era grito e gestos largos.

— Tá bom garoto, tá bom garoto, agora fique quietinho e trinca essa cana no dente que esta docinha, docinha.

(Pacheco retorna com os lábios besuntados do gorduroso cachorro quente)

— Pensando na vida garoto?

— Não, a vida que esta pensando em mim. Nos melhores entretenimentos para ser desfrutados.

— E se sentir dor Joãozinho?

— Sinal que meu corpo é meu amigo e esta me avisando que tem algo precisando de atenção e cuidados.

— Mas e se aparecer nesse momento aparecer um homem perigoso e te cortar as duas pernas Joãozinho, como ficas?

— Sem elas, ora essa. Pacheco, que pergunta engraçada, acho que as minhas minhocas (faz sinal para barriga) rolaram de rir.

— Como classificaria a minha pergunta?

— Absurda. Dias atrás, eu com essas orelhas, que a terra há de comer, ouvi o senhor do bar dizer:” Numa esquina qualquer, o sentimento do absurdo pode bater no rosto de um homem qualquer.”
—  Que maravilha! Isso é filosofia de primeira.

—  O Zé do bar é sábio Pacheco.
—  E você inteligente Joãozinho.

—  Que nada Pacheco. O senhor que é. O senhor é homem lido e sabido.
—  Pare com isso Joãozinho, vou se embora, ora essa, mas eu volto.

(…)

O auxiliar de escritório

Magrelo, infeliz e inferior. Assim ele sentia os olhares das pessoas do escritório. Tinha conhecimento da sua miudeza como funcionário e como ser humano. O paradoxo era ironicamente sua altura: 1,91 cm – apesar de, estar sempre encurvado, sempre falando baixo, se encolhendo perante as pessoas do escritório e os clientes que apareciam por lá. Estava lá com a testa em vincos, os lábios sempre abertos lhe davam aquele ar “apalermado”. Nariz quase não possuía, porém, suas orelhas eram extravagantes, era mais um ser de descomunal fealdade, perdido em mais um escritório do mundo. O escritório era de advocacia e contabilidade, ele tanto trabalhava com os advogados e  contadores, era um escravinho dócil.

Na hora de trabalhar era todo em denodo, apuro, precisão, um bom funcionário. Braços compridos, dedos longos facilitavam o manuseio dos papeis; ele até que gostava de olhar a resma toda pra lá e pra cá. Só ficava um tanto irascível por conta dos funcionários que pareciam não ter banheiro em casa. A sua estimada e organizada mesa ficava próxima ao banheiro, de onde vinha a morrinha de urubu morto. Sua respiração reprimida, seu suor mesmo em dias frios, por conta do ódio que sentia dos cagalhões do trabalho. A labuta se tornava insuportável, torturante com aquele momento odorífero que, se arrastava por longas oito horas de lida.

Estava ele lá redigindo a porcaria do documento quando, de soslaio percebe um corpo disforme se levantando – era o advogado que religiosamente cagava depois da segunda hora de trabalho – um filho da puta, frouxo, sem esfíncter. Uma parcela da sua coordenação motora fica só para observar sem olhar para onde o advogado iria caminhar. Vinha lá o advogado cagão, com seus pezinhos de pato, sua soberba própria de advogados,sua papada de quem adora uma comida gordurosa, nada salutar, de preferencia bem salgadinha e condimentada. O advogado cagão, passa de pescoço erguido pelo auxiliar de escritório, segura a maçaneta da porta e lá esta ele vitoriosamente  banheiro adentro.

O sofrido funcionário subalterno, fica lá trabalhando com menos vigor, prestando atenção para ver se percebe o barulho da tampa da privada. Escuta o barulho do assenta cair violentamente sobre o vaso (vaso deveria ser para plantas?), começa ali sua preparação psicológica para o iminente e incoercível odor. Aquele  banheiro tinha que ser maior e mais distante, infelizmente não era, azar o dele.
O advogado sentado, calças ali arriadas, concentrado no meticuloso ato de cagar. Rapidamente vem um barulinho muito peculiar ao botijão de gás quando esta perdendo seu hímen sexual. Foi a combustão espontânea dando sinal de vida, mostrando que havia algo fermentando com potencia destruidora de ambiente de trabalho, dentro da sua barriga. De súbito mais gases atravessam seu canal retal com certa pressão; aquela pressão violenta trouxe o bolo fecal ressequido – o guerreiro do canal dele, já estava acostumado com a aspereza das fezes. Era uma quantidade absurda de fezes, por mais algumas gramas viria a alcançar suas nádegas o montante de bosta.

Depois do asseio, de lavar as mãos e o rosto, o advogado sai levíssimo da casa de banhos, com um certo ar lépido caminha até sua mesa e trabalha vagarosamente, enquanto o ordinário serviçal continua seu trabalho maçante, agora com bafio perfumado, inebriante. Havia 6 anos que executava suas medíocres funções ali, não tinha descarregado suas fezes no banheiro do escritório – a merda, na maioria das vezes chegava a empedrar na sua barriga, misteriosamente não cagava no escritório. Os funcionários imaginavam que fosse uma pessoa sem ânus.
Aquele medíocre funcionário odiava todos do seu trabalho. Ser auxiliar de escritório já era uma merda, ainda mais onde todos parecem patos – comiam e cagavam, comiam e cagavam, incansavelmente, assim como os patos. Na sua odiosa visão todos os funcionários eram apenas tubos digestivo! Nenhum era ser humano. Olhava dos pés à cabeça, apenas enxergava um tubo digestivo repleto de bosta enveredando-se à caminho da amável latrina.

A vida.

O que é a vida? nenhum erudito, douto, filósofo vai satisfazer sua indagação. Cada um vai lhe dirigir uma resposta subjetiva, filosófica, poética, jocosa, deprimente ou miríades de respostas plausíveis, porém, pouco satisfatória no modo geral. Eu tampouco venho deliberadamente trazer uma resposta -venho apenas discorrer com um assunto pertinente, pessoal e talvez empático. É um assunto que poucas pessoas “perdem” tempo confabulando, dialogando. Agora falar de vida e não falar de morte é dificil, vou falar de morte também.

Para mim a vida é pesada, me questiono em relação a tudo, a todos. Não me basta só existir, quero amenizar meus sofrimentos humanos – que não são poucos. Essa semana, este ser infinitesimal que vos fala (escreve) recebeu uma noticia ruim. Eu recebi a noticia que meu único avô (outros todos finados a sete palmos) estava hospitalizado. Como meu avô conta seus 77 anos, imaginei seu fim  iminente. Acordo com esta noticia dificil de digerir, pior ainda pela manhã. De fato fiquei imediatamente macambúzio, não quis sair de casa, não quis fazer nada. Realmente fiquei como a maioria das pessoas ficam com este tipo de noticia.

Aí fiquei pensando filosoficamente que de fato o ser humano carrega seu cadáver nas suas costas, isso a vida toda, incansavelmente, sofrivelmente, desgraçadamente isto é a vida do ser humano. Nasce e no primeiro lampejo atilado da vida, já começa entender as coisas inconscientemente e também conscientemente. A partir dos seus poucos anos de idade, ocupa sua mente e seu corpo basicamente para não lembrar que a vida é uma causa perdida. Vai morrer logo amanhã; vai trabalhar arduamente, transpirar atrás dos sonhos, debruçar-se em estudos extenuantes, para perder tudo na velhice com a morte. Pensar na morte resolve alguma coisa ? não é pessimismo demasiado ? vãs indagações estas! Da vida você faz o que quer, ou o que sua situação o permite e ponto final.

Imagino a vida como linhas convergentes que fazem um percurso lento ou rápido, do qual terminado forma-se o circulo, ou seja, a vida é um ciclo em forma de circulo. Ele tem que se fechar e, fechando é o momento final, o seu final, sua sonhada morte, seu tão esperado descanso para um débil corpo de tantos pares de anos gastos correndo atrás do vento. Seu imaculado cadáver, este há suas costas tantos e, tantos anos alcança o chão, quando ele alcança o chão tudo se acaba. No momento que esvai-se a força, o féretro é seu destino.

Gosto de uma citação de Borges: “desvario laborioso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de explanar em quinhentas páginas uma idéia cuja exposição oral cabe em poucos minutos”. Borges é o sobrenome do meu avô acamado, mas, vou seguir a frase e finalizar minhas explanações nestes minutos de ócio criativo (afinal de contas gosto das palavras e tento escrever), nessa vida besta que tenho; não é um texto sobre a minha vida, por isto vou prosseguir no cerne da explanação: a vida. Tenho um colega bobo do qual só me correspondo pela internet e ele diz: a vida é a temperatura. Corroboro piamente com ele no sentido que ele deseja ser compreendido. Ele quer dizer que a vida é o corpo humano, sua vitalidade, ou seja, sua temperatura. Imagine seu corpo gelado (por dentro e evidentemente por fora), jaz morto, não? pois é, aí já não haveria vida. Então a vida seria esta combustão, esta combustão alimentada pela natureza, através de seus alimentos. No momento que tu joga carvão dentro do seu corpo (alimentos) tu esta alimentando uma fogueira, esta fogueira tem uma engenhosidade (biologicamente) praticamente perfeita, que mantém seu corpo aquecido e vivo. É uma analogia estranha, mas coerente. Sua máquina (corpo) não pode superaquecer, senão tem síncope, derrame, infarto e uma variedade de problemas que causam sua perca total (da vida). A vida não é dura como dizem, o corpo que é duro, no sentido de resistente, porque não se morre fácil assim como dizem (salvo acidentes, claro). O corpo é incomensuravelmente potente, ele resiste a muitos problemas e dificuldades. Tanto que meu avô esta lá, alquebrado, em frangalhos vivendo como sua máquina humana o permite (o corpo). Eu vou aqui imaginando a vida pra ela me imaginar, vivendo como posso , como da, porque “a vida é uma causa perdida”, se eu morrer hoje ou amanhã, meus próximos vão ter de aturar e aceitar esta tragédia comum. Meia duzia de lagrimas, alguns dias dolorosos para os parentes e tudo volta ao normal. Quem vai envelhecendo, vai enterrando e aprendendo a esquecer os queridos -parafraseando como diz o excelso poeta e compositor Arnaldo Antunes; a cada dia vai ficando mais forte e, com sorte morre cedo.

“Hoje reclamas da vida sofrida, dolorida; amanhã morres em morte indolor, na morte não há dor. A vida dói, corrói; a morte é indeterminadamente desconhecida.”